Qual é o tesouro dos escritores? E dos poetas? O que há de tão precioso e mágico em seu trabalho? Em escrever, em narrar, olhar com olhos e exprimir com fonemas e símbolos todos os significados que há no mundo e os que não há também...
Se a imagem produzida por um poema for tão breve como um flash ... e for tão eterna para ficar encravada em versos, talhada em palavras, rimas subversivas, tão cruelmente lapidadas pela vida e lançadas no espaço preciso do papel... É um mar de registros, versões, histórias, estórias, elucubrações e memórias...
O que pode um escritor fazer para socorrer a pobre realidade? Senão deixar em definitivo, o que é tão-somente provisório...é por um facho de luz aonde só existem trevas e silêncio.
Então o poeta decifra tudo de forma tão coerente e natural que não há nada inexpressível... não há nada que se perdoe em esquecer.
Ucho Haddad efetivamente sentiu, registrou e mostrou ao mundo o sentimento humano, todo o sofrer mundano um desvanecer por viver intensamente... sorvendo do cálice da vida o próprio sabor da saliva.
Vive ele sôfrego e saudoso atrás de vírgulas, num parágrafo, numa estrofe principiar uma maratona até atingir pleno a mais completa acepção da semântica filosófica a que se expõe e interroga.
É insolente por não se permitir ao silêncio promíscuo e, nem ao leitor que se intimide com a exuberância da vida. A coisa mais bonita é sua gratidão ao pai, a enorme figura humana deificada e edificada pelos anos em sua própria genética.
Ucho é redescobridor de exuberâncias, é um mestre de cerimônias que apresenta o mundo ao leitor e empresta a sua própria alma como veículo. É o pai da inteligência e mãe da criatividade.
Não importa que depois o esqueçam, ou mesmo lhe odeiem, não importa que jamais enriqueça com sua literatura.
Não importa no mágico momento da revelação, descobrir-se em Deus que cria e recria todas as coisas. E a nossa infinita iniqüidade.
Constrói pontes sobre os abismos, reúne os paradoxos, brinca com os mais diversos oxímoros e, ironiza com metáforas a realidade crua e mal passada.
E o engraçado que o rebelde e issureito Ucho revela-se um romântico incorrigível, daqueles que ainda crê na tangibilidade, na possibilidade do diálogo, na humanidade, na sinceridade das coisas banais e verdadeiras e na mais rara expressão de humildade.
Eu me comovi ao ler suas poesias em redescobrir em sua humanidade traços comuns e ao mesmo tempo tão invulgares.
Comovam-se também e ressuscitem a phênix e o Deus adormecido que há em cada um de nós, pobres mortais!
Se você pudesse com uma simples leitura devastar o mundo, e esgotar todas as possibilidades sensíveis, perceptíveis e sinceras de conhecer a essência humana.
Estaríamos num profundo meditar filosófico e dialético num silêncio repleto de signos e significados em devaneios capazes de sintetizar numa só nota vida, humanidade e voracidade.
Quem poderá transformar a desilusão em lirismo? Só o poeta pode. Comover o homem moderno tão rodeado das mais inteligentes tecnologias e lhe apresentar o modesto metabolismo do coração... Em amar, amar e desamar só para amar novamente...
E Você, Ucho Haddad conseguirá sobreviver e se imortalizar só pela intensidade eloqüente que a poesia guarda da vida.
E a carruagem implacável do tempo passa, lá se vai a juventude, a maturidade, o que realmente insiste e persiste são as idéias, os ideais, os valores que jamais conhecem o fim, pois trocaram de roupagem e atravessam os séculos...
E o homem, pobre animal consciente de sua finitude se arremessa fatalmente até a eternidade por sua capacidade de criar e expressar não só suas experiências, mas, sobretudo a história.
A verborragia intensa de Ucho, a pujança de sua indignação se revela ainda mais na alma generosa do poeta, do filho dedicado e saudoso, no crédulo nos valores humanos e, sobretudo na magnitude da dignidade de ser sensível.
Gisele Leite
Gisele Leite é bacharel em Direito e Filosofia e professora na Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro.